Linguagem, faculdade humana
De expressão do pensamento;
Língua, maneira de expressão
Comum a um grupo social.
Pela palavra o indivíduo
Se serve da linguagem
E dentro dele se produzem
As variações de sentido numa frase.
 
Enquanto modo individual,
Uma circunstância de sentido
Na frase interessa à palavra,
Mas se uma alteração introduzida
Recebe consagração do uso,
Que a incorpore ao patrimônio comum
De um grupo considerável,
Ela passa ao campo
De interesse da língua.
 
A língua, um estado particular,
É da palavra a cristalização.
"Desta última o uso da palavra é árbitro" -
Eis o que, em Arte Poética
Já dizia Horácio.
 
Renascerão palavras outrora perecidas,
Cairão outras, hoje em moda.
Um homem não muda uma língua,
Mas um povo a transmuda
Na evolução das palavras
Sempre tocadas de um inquieto
Dinamismo transformista.
 
Necessidade de expressão,
Ponto de vista pessoal,
Emoção individual, tudo isso
Gera a força que cria a palavra nova
Ou o sentido novo
Para uma palavra antiga.
 
A língua é o rebanho
De que as palavras são ovelhas.
Estarão elas nele,
Mas nem sempre gostarão
Do arrebanhamento.
 
Palavra é um composto de alma e corpo
Na simbiose do vocábulo e do termo.
O vocábulo é o corpo, o termo é a alma;
O vocábulo é a concreção física,
O termo a forma espiritual, o sentido;
O vocábulo é continente,
O termo é conteúdo.
 
O vocábulo, corpo fugaz
 Sopro que o vento logo dissipa,
Ele leva, de quem fala
 A quem ouve, o termo.
Este último é alma que persiste,
 Semente que fica,
Germina e floresce
 Na gleba macia da emoção,
Na terra fértil da vontade.
Isto, conquanto ele, o termo,
Na intenção de quem fala
Tenha sempre notas subjetivas,
Matizes que o vocábulo não traduz.
E mais: na recepção de quem ouve
Entram notas,
 Resíduos de outras compreensões,
Que o ouvinte acresce
 E mistura ao termo recebido.
 
Não há, pois,
Medida comum nem coincidência
Entre o vocábulo e o termo
No comércio das idéias.
 
Se alguém sob a influência
E alimentação intelectual
Do meio ambiente,
Recebe uma idéia
 Não necessariamente informada
E corada com os tons
 Em que fora transmitida,
Também assim quando a repassar
Já lhe aditará alguma coisa de seu,
Que nem sempre
Logrará chegar ao interlocutor.
 
Está - fatos assim o demonstram -
Na fatalidade da limitação terrena,
Que a palavra seja um veículo
Falho e coxo.
 
A palavra nunca é
Só figura de retórica,
Ainda que o seja
 Na intenção de quem fala,
Aquele desabafo que lamenta
"a falta de expressões
 para dizer o que vai n'alma".
 
Quantas vezes,
entre a boca e ouvido,
A palavra muda de alma
E de sentido
Tanto que produz efeito
Diverso do que buscava!
Daí os desentendidos humanos.
 
Descompassos
Entre o termo e o vocábulo
Geram as incompreensões,
As subcompreensões,
As compreensões de menos,
As compreensões de mais.
A palavra disse pouco
 Ou disse muito:
Foi de menos
Ou foi de mais, quando,
De intenção,
Oferecia o justo necessário.
 
Quão infinitamente
 Seriam reduzidas as guerras,
Ah, se medida tivessem as palavras,
Bem assim nitidez de conteúdo
E limite.
 
Com razão dizia Voltaire,
Com aquela malícia
Que Deus lhe deu
E que o Diabo lhe temperou:
"Se comigo deseja discutir,
as suas palavras primeiro defina".
 
Se nesta altura já indaga o leitor:
Mas, o que tudo isto teria a ver com Prefácio,
Com "Por que Prefácio?",
Eis, doravante a resposta.
 
Se na expressão de Latino Coelho,
"A história do globo é o preâmbulo à
Crônica do homem"...
Se prólogo é o discurso
Que antecede uma obra escrita.
Se - voltando ao Sábio Lusitano -
"A geologia é o prólogo da humanidade".
 
Se prefação á
"a ação de falar antecipadamente";
Se prolegômeno é
 "exposição preliminar
Dos princípios gerais
 De qualquer ciência ou arte";
Se intróito é entrada,
Princípio, começo;
Se introdução é cabimento;
Se exórdio é a maneira
 Como uma coisa é começada
 Ou inaugurada;
Se prolóquio é máxima,
 Adágio,
Sentença dito ou provérbio...
Por que Prefácio?
 
Porque Prefácio
Contém em resumo,
Sumariza,
Fala antecipadamente,
Expõe preliminarmente,
Traz os princípios gerais,
É introdução,
Inaugura.
 
Prefácio condensa,
Recopila,
Abrevia,
Epílogo,
Reduz,
Condensa,
Concentra.
 
Prefácio
 - ora, amigos prefacianos -
Simboliza em ponto pequeno,
Representa,
Faz consistir,
CONSUBSTANCIA
O IDEAL DE CLÉSIO SILVA,
O acervo a cada dia crescente
Dos tantos poetas independentes,
Dos que se comunicam
Pela linguagem escrita,
Pela língua,
Pela palavra.
Dos que cultuam,
Dos que cultivam
A doce Arte
Cujo assunto
Aqui se fez prefácio
Para que chegássemos
 Enfim a responder
"Por que Prefácio?"

 
 


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